quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O amor criou asas e me encontrou

Eu contava os dias para que as férias chegassem, não porque eu queria sair sem ter hora para voltar, como a maioria das garotas da minha idade, mas para poder sentar na varanda e ficar olhando a lua assumir seu lugar. Era assim todos os dias. Via o céu e contava as estrelas por horas. Havia virado rotina adormecer ali, sentada naquela velha cadeira, mas não com um corvo ao meu lado. Eu mesma me espantei com a minha reação, nada de gritos, pavor ou coisa do tipo, nem mesmo a presença daquela estranha e assustadora ave me incomodava, aliás, eu até me sentia bem com aquela companhia. Nas noites seguintes o corvo também apareceu. É vergonhoso dizer mas, eu conversava com ele. Numa das tantas vezes que meu estranho “amigo” estava ali, acabei dormindo e logo acordei; ouvi passos e, apesar disso, não abri os olhos. Desconsiderei a hipótese do som ter vindo das pequenas patas do corvo, porém, na noite seguinte, ouvi o mesmo barulho. Dessa vez, meus olhos estavam arregalados. Era um homem, com ótima aparência. Em seu braço havia algo escrito, mas com a distância e, sem óculos, não consegui entender. Mesmo assim eu tinha certeza, a palavra era “corvo”. A princípio não acreditava na existência de um pássaro que se transformasse em homem, mas quando vi seus olhos, vermelhos como a chama de uma fogueira, percebi que se tratava mesmo de algo que eu nunca tinha visto antes. Não me restavam dúvidas de que ele era mesmo meio corvo, meio homem. Sua roupa preta iluminava seus olhos como as penas de um corvo dão destaque ao “par de cerejas” que os faz enxergar. Chamei-o em vão. Segundos depois vi aquele homem, impecavelmente lindo, se transformar num corvo e, era o meu corvo, se é que posso chamá-lo assim. Éramos próximos e ao mesmo tempo distantes. Eu o conhecia como ave e falava com ele nessa forma; mas o homem, aliás, o corvo quando se transformava em homem, mexia comigo de uma forma inexplicável. Passava dias pensando nele e noites com ele ao meu lado, não como gostaria, mas com o corvo que pousou em minha cadeira há semanas atrás. O tempo voava, assim como a ave que me abandonava cada vez mais depressa. Já havia pegado no sono enquanto esperava a visita de sempre, quando ouvi o doce e misterioso som de algumas palavras. Meu coração veio à boca e a única coisa que eu conseguia pensar era “ele veio e, dessa vez, na forma humana”. Eu estava certa, era mesmo o meu corvo. Meus olhos brilhavam, minhas pernas tremiam e minha pulsação acelerou. Num tom suave ele disse: acalme-se. Como eu poderia ficar calma junto do ser que me fazia contar cada minuto do dia a sua espera? Antes mesmo de o meu cérebro formular uma resposta para minha própria pergunta, ele me beijou. A partir daí, nada, absolutamente nada mais me importava, a não ser ele.

Esse texto foi feito pra um concurso da Capricho, há algum tempo. O tema era romance assombrado e devíamos escrever a história com exatamente 500 palavras.

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